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[CINEMA] Avatar - James Cameron


Existem certas situações que mudam nossa maneira de pensar, ver, agir, até mesmo de ser. Uma pessoa que conhecemos, uma livro que lemos, uma música que escutamos, um filme que vemos. Hoje, no meu caso, foi a última alternativa. Assisti ao tão falado, esperado, comentado filme AVATAR, de James Cameron, mesmo diretor de Titanic, True Lies e O Extermidador do Futuro 2.
Mas comecemos do começo. Um filme pra ficar na memória, pelo menos pra mim, não necessariamente tem que ser um grande filme. Ele precisa fazer com que eu esqueça o resto do mundo naquelas poucas horas dentro da sala de cinema e ainda, durante sua exibição, me faça experimentar as emoções que o roteirista e diretor quiseram passar na obra. E apesar de amar cinema - mesmo conhecendo pouquíssimo - são poucos os filmes memoráveis pra mim. O último filme que me fez sair da exibição e voltar a realidade, que me fez entrar num mundo paralelo, que me fez sentir arrepios - de medo e emoção - e sentir meu coração acelerar foi "O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei" no longínquo ano de 2003. A primeira parte da trilogia foi um divisor de águas. Saí da sala ainda de queixo caído pelo que tinha visto. E hoje, com Avatar, senti a mesma coisa.
O projeto de JC vem sendo tratado há anos como o mais ambicioso projeto do cinema. Talvez da história do próprio cinema. É o primeiro projeto dele depois de Titanic. E lá se vão mais de 10 anos. Tudo isso porque o roteiro necessitava de tecnologia pra ser desenvolvido. Tecnologia que na época não existia. Pois agora ela existe e JC mostrou que valeu a pena esperar cada segundo desses anos todos.
Avatar passa longe de ter um roteiro criativo e digno de oscar. Mas nem por isso é menor. Avatar com certeza (?) já está com o Oscar de Efeitos Especiais. E é maior por isso. Não apenas por isso. Quem viu o filme em 2D perdeu uma oportunidade única na vida de viajar a outro planeta sem sair da sala do cinema. Literalmente. JC criou absolutamente tudo o que se vê na tela: desde o menor microorganismo de Pandora até a linguagem dos Na'vi. É tudo novo, é tudo real, é tudo perfeito. É a tecnologia de que falei a pouco.
Avatar fala basicamente da cobiça humana. "Nós" queremos um mineral raríssimo - que vale bilhões de dólares o quilo - e que só existe em Pandora. E "faremos" de tudo pra consegui-lo, doa a quem doer, mesmo tendo como exemplo a devastar nosso querido planeta Terra na exploração de seus recursos, tornando-a um "lixão planetário". Como o ambiente em Pandora é hostil aos seres humanos, foram criados avatares com um mixto de DNA humano e dos Na'vi (habitantes locais) controlados mentalmente por seus respectivos humanos. Por força do destino (?), Jake - militar que herdou o avatar de seu irmão gêmeo morto dias antes do início do projeto - é "escolhido" pelos nativos e passa a fazer parte do povo Na'vi e ao mesmo tempo levar informações aos seus superiores - comandante Coronel Quaritch, a encarnação futura de Geroge W. Bush - de como fazer os Na'vi cederem o espaço para a "mineração". Ninguém contava é que Jake se apaixonaria por Neyriti, filha do líder nativo. A partir daí a história ganha corpo e alma para caminhar rumo a eternidade. Toda e qualquer descrição que eu fizer será pequena e insuficiente. É preciso ver para crer - nada melhor que um clichê para falar de outro(s).
O cinema sempre foi um entertenimento. E sempre será. Num ano em que bons filmes quase não foram vistos, apesar da arrecadação recorde de Hollywood, Avatar veio, uma semana antes do Natal, para nos presentear com o melhor que o entretenimento pode nos oferecer. Avatar já é um divisor de águas no mundo cinematográfico. Independente de quaisquer premiações ou bilheteria! E salve JC por mostrar o futuro do entretenimento - 3D. Que ele demore mais uma década para nos espantar com sua mágica outra vez!

UPDATE: Vale lembrar também, claro, que JC colocou no roteiro, acima de tudo, uma grande e bela mensagem ecológica, tudo nas entrelinhas. Ou não! "Qualquer semelhança é mera coinscidência"? Não mesmo.
Outra coisa que merece ser comentada: não sei se foi só eu que prestei atençao, mas o jogo de cores do filme é simplesmente espetacular. Algo como bem x mal utilizado nas cores com que a história é contada! O Bush do futuro e sua equipe humana geralmente num tom de cinza e cores mais sombrias. Já Pandora mostra toda sua exuberância de cores e formas e sons e texturas e cheiros... Sublime!

P. S. - Eu Te Amo


Definitivamente não é uma comédia romântica, é um romance dramático. Pode levar o lencinho, as lágrimas serão inevitáveis.

'P.S. Eu te amo' conta a história de Holly (Hillary Swank) e Gerry (Gerard Butler), uma história interrompida pela morte precoce. O desafio dela é enfrentar a perda, não só a perda do passado, do marido e de sua companhia, mas a imposição da perda de um futuro, bom ou ruim, seja ele qual fosse.
A mágica do filme não está em Hillary Swank, em Kathy Bates, nem mesmo na hipnótica atuação de Gerard Butler, a encarnação exata do homem doce, apaixonado, irresistível, com suas qualidades e defeitos: a magia fica por conta da direção, da sensibilidade na forma de contar, na abordagem intensa de cada cena, de cada lembrança que Hillary guarda de seu amor e na forma como enfrenta suas próprias dores e aprende a lidar com o que nunca será.
Há alguns ruídos, causados tanto pelo amigo Daniel (Harry Connick Jr.) como pelas amigas de Holly - histórias desnecessárias e mal construídas para aliviar o conflito principal ou, pelo menos, para diminuir a tensão das cenas dos protagonistas. Isso, contudo, não chega a estragar o filme, muito embora o cuidado com o tratamento dos coadjuvantes seja sempre um ponto relevante para um resultado harmonioso da trama. 
'P.S. Eu te amo', leva à reflexão sobre atitudes, sobre as escolhas que fazemos quando a felicidade está tão perto que nem lhe damos valor, quando o amor está acessível, mas não o conseguimos escutar, fala sobre os silêncios e incompreensões com aqueles que nos são mais próximos, nos conta da importância de aproveitar melhor o tempo que nos é dado. E, de forma sutil, aborda essa mania de fazer a vida depender de fatos, quando ela acontece diariamente, a despeito de nossas vontades e conveniências. 
Destaque para as belas imagens da Irlanda, em contraposição à exigüidade do espaço em Nova Iorque, e também para a atuação de Kathy Bates e Gerard Butler que, sem dúvida, contribuíram para aumentar a carga emocional e dramática do ótimo longa.

Fonte: Paula Cajaty

'Empire' elege os 500 melhores filmes de todos os tempos

A revista Britânica Empire fez uma pequena lista com nada mais que 500 filmes escolhido por ela como sendo os melhores filmes da história do cinema mundial.

Como não caberiam todos aqui, colocarei os 50 primeiros!

Vale lembrar que a lista foi feita pelos colaboradores da Empire e não necessariamente está de acordo com a minha opinião.

Mas vamos lá:

1. "O podereso chefão", de Francis Ford Coppola (1972)
2. "Indiana Jones Os caçadores da arca perdida", de Steven Spielberg (1981)
3. "Star Wars: O império contra-ataca", de Irvin Kershner (1980)
4. "Um sonho de liberdade", de Frank Darabont (1994)
5. "Tubarão", de Steven Spielberg (1975)
6. "Os bons companheiros", de Martin Scorsese (1990)
7. "Apocalipse Now", de Francis Ford Coppola (1979)
8. "Cantando na chuva", de Stanley Donen e Gene Kelly (1952) 
9. "Pulp Fiction", de Quentin Tarantino (1994)
10. "Clube da luta", de David Fincher (1999)
11. "Touro indomável", de Martin Scorsese (1980) 
12. "Se meu apartamento falasse", de Billy Wilder (1960) 
13. "Chinatown", de Roman Polanski (1974) 
14. "Era uma vez no Oeste", de Sergio Leone (1968) 
15. "O cavaleiro das trevas", de Christopher Nolan (2007) 
16. "2001: Uma odisséia no espaço", Stanley Kubrick (1968) 
17. "Taxi Driver", de Martin Scorsese (1976) 
18. "Casablanca", de Michael Curtiz (1942)
19. "O poderoso chefão - Parte II", de Francis Ford Coppola (1974) 
20. "Blade Runner", de Ridley Scott (1982) 
21. "O terceiro homem", de Carol Reed (1949) 
22. "Star Wars: Uma nova esperança", de George Lucas (1977) 
23. "De volta para o futuro", de Robert Zemeckis (1985) 
24. "O senhor dos anéis: A sociedade do anel", Peter Jackson (2001) 
25. "Três homens em conflito", de Sergio Leone (1967) 
26. "Dr. Fantástico", Stanley Kubrick (1964) 
27. "Quanto mais quente melhor", de Billy Wilder (1959) 
28. "Cidadão Kane", de Orson Welles (1941) 
29. "Duro de matar", de John McTiernan (1988) 
30. "Aliens - O resgate", de James Cameron (1986) 
31. "E o vento levou", de Victor Fleming, George Cukor e Sam Wood (1939) 
32. "Butch Cassidy", de George Roy Hill (1969) 
33. "Alien - O oitavo passageiro", de Ridley Scott (1979) 
34. "O senhor dos anéis: O retorno do rei", de Peter Jackson (2003) 
35. "Exterminador do futuro 2", de James Cameron (1991) 
36. "Andrei Rublev", de Andrei Tarkovsky (1969) 
37. "Laranja mecânica", de Stanley Kubrick (1971) 
38. "Fogo contra fogo", de Michael Mann (1995) 
39. "Matrix", dos irmãos Wachowski (1999) 
40. "Um corpo que cai", de Alfred Hitchcock (1958) 
41. "Os incompreendidos", de François Truffaut (1959) 
42. "As oito vítimas", de Robert Hamer (1949) 
43. "O grande Lebowski", dos irmãos Coen (1998) 
44. "A lista de Schindler", de Steven Spielberg (1993) 
45. "Psicose", de Alfred Hitchcock (1960) 
46. "Sindicato dos ladrões", de Elia Kazan (1954) 
47. "E.T. - O extraterrestre", de Steven Spielberg (1982) 
48. "This Is Spinal Tap", de Rob Reiner (1984) 
49. "Evil Dead 2", de Sam Raimi (1987) 
50. "Os sete samurais", de Akira Kurosawa (1954)

Na modesta opinião deste que vos fala, o melhor filme de todos os tempos é O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei. Mas tudo bem... Os eleitos são muito bons também!

Juno

Histórias de amor eterno são tratadas de duas formas distintas no cinema. A primeira é de maneira fantasiosa: garota espera o príncipe encantado e ambos vivem felizes até os 80 anos, quando morrem de mãos dadas. A segunda é de forma cínica: o amor eterno não existe e a complexidade da relação um dia exigirá seu preço, jogando o casal (ou um dos lados do casal) numa orgia de confusão sentimental. Quando um filme consegue escapar dessas visões maniqueístas, uma obra-prima se forma. Foi assim com As Pontes de Madison, sobre o amor versus comodismo. Foi assim com Antes do Amanhecer, sobre o amor versus a inconveniência da distância. E é assim com Juno, surpresa indie do ano que consegue juntar a magia inocente do primeiro amor e as dificuldades desse amor (?) se manter na vida adulta.O tema é tratado de maneira inteligentíssima pelo roteiro de Diablo Cody. Sua Juno (Ellen Page, sensacional), a garota que fica grávida na primeira transa e decide passar o filho (ou "a coisa", como costuma dizer) para um casal infértil, é uma daquelas personagens antológicas, apaixonantes e reais. Ao contrário da maioria das criações femininas jovens do cinema, Juno tem uma decisão a tomar e encara isso de forma verdadeira. Não há pais desajustados que irão chorar pelo destino "da minha menininha", não há o namorado canalha (neste caso, há o frágil corredor vivido por Michael Cera) e não há uma protagonista idiota e desesperada - é uma garota de inocência assumida, mas lida com isso de maneira esperta.No meio de tanta bizarrice que vemos em filmes sobre adolescentes, Jason Reitman despiu-se do cinismo que apresentou em Obrigado por Fumar e se revelou um diretor sensível e consciente de suas criações. E assim tratou o casal mais velho vivido por Jason Bateman e Jennifer Garner. É um cara com ambições diferentes, roqueiro e fã de filme de terror e quadrinhos, que evita se dedicar a isso porque a mulher não gosta. Essa relação simbiótica (ele se deixa levar pelo amor que sente e ela não percebe que mata o homem por quem se apaixonou ao podá-lo de seus prazeres) é cruel e comum. Talvez seja o melhor de Juno: passar duas horas com pessoas interessantes que podem estar ao seu lado.

fonte: Revista SET

Tropa de Elite - continuação


Sustentada (e, claro, mimada) por correntes soldadas pelo governo, a indústria cinematográfica brasileira raramente gosta de bater de frente com quem lhe garante a mesada. Tropa de Elite não bate apenas de frente com seus patrocinadores estatais. O longa de José Padilha (Ônibus 174) choca-se como um caminhão de gasolina contra diversos setores da sociedade. A primeira parede a desmoronar na obra é a temida Polícia Militar carioca, mostrada como uma instituição jogada às traças e risível. A segunda é a política, representada sem perdão por crápulas egoístas que, diretamente, criam o próprio mal que prometem combater. A terceira parede - a que nenhum longa de ficção havia tido colhões para destruir - é a própria sociedade brasileira, um gênero incrível de habitante terrestre que não faz nada além de proteger os próprios interesses e criar uma redoma de ignorância só quebrada quando passa por uma tragédia. Bem, o lado bom é que você não precisa mais passar por uma tragédia para acordar. Tropa de Elite joga o Brasil como ele é, sem maquiagem, heróis encapuzados ou soluções fáceis. O país da ética individual está escancarado pela primeira vez de forma suja e realista - e não em formato de comédia, como nos anos 70. Nesse mar de corrupção e violência que não muda desde 1997, data-cenário do longa, não é de se espantar que um capitão de uma tropa de elite cruel e repressora seja visto como herói. O capitão Nascimento, que Wagner Moura constrói de maneira visceral, é o exagero de nossos desejos de melhoria. É a raiva contra senadores nunca cassados, juízes com penas malucas, matadores fora das grades e as centenas de assassinatos cometidos todas as semanas. Se ele é a solução ou a raiz de outro problema, não é o que Tropa de Elite quer provar. O longa só baixa todas as cartas e apela para um sentimento de cidadania cujo reflexo é cada vez mais opaco no Brasil. Se for o começo de algo, melhor. Antes de mais nada, Tropa de Elite é um filmaço de ação, corajoso, bem escrito e com um elenco mais-que-afiado. É para se ver no cinema, se divertir, discutir num bar depois e não esquecer tão cedo.
Além da Linha Vermelha
Fenômeno de venda nos camelôs, Tropa de Elite quer passar por cima da polêmica da pirataria e dos estranhos acontecimentos durante as filmagens para se tornar o melhor (e mais corajoso) filme de ação da história do cinema nacional

Hoje é dia de Flamengo e Botafogo no Maracanã. Dia de clássico no Rio de Janeiro muda o panorama da Cidade Maravilhosa. O povo parece mais alegre que o Normal. O tráfego, por outro lado, deixa qualquer um irritado. O trajeto entre o escritório da Paramount, onde havia acabado de ver em primeiríssima mão a versão definitiva do que promete ser o maior sucesso do cinema no Brasil em 2007, e o quartel-general da produção de Tropa de Elite não duraria quinze minutos. Meia hora depois, ainda estamos presos próximos à Lagoa Rodrigo de Freitas. Aproveitando o turismo lento, o colaborador carioca de SET, André Gordirro, puxa o corriqueiro papo cinematográfico. O taxista ouve a conversa com o canto das orelhas. "Cêish trabalham com o quê?", pergunta com o jeitão malandro, ouvindo de volta que somos jornalistas especializados em cinema. "Pô, cêish tão sabendo do filme que tão querendo proibir de vender?" Qual, Tropa de Elite? "Esse merrmo, o filme dos caveira", diz, já empolgado.
Pelos próximos dez minutos, o taxista anônimo conta que já viu o longa duas vezes ("Adoro quando a fuleiragem se fode! Tenho só um táxi, mas pago dois porque roubaram o outro.") e considera alguns dos eventos chocantes do primeiro longa de ficção de José Padilha (Ônibus 174) fichinha perto do que já viu. "Na Vila Aliança (Baixada Fluminense), tem dias que nem o caveirão (carro blindado do Batalhão de Operações Especiais do Rio, o Bope, também apelidado pelo povão de 'Caveira') sobe. Os malucos lá conseguiram uma arma chamada caça-andróides, que atravessa o carro como papel." O motorista nos deixa numa pracinha calma, no pé do morro verde do Jardim Botânico. Não foi nem preciso bater na porta da produtora para entender o nível de penetração de Tropa de Elite, cuja versão inacabada vazou a três meses da estréia oficial e foi parar nas mãos de camelôs e na Internet. Com o ator baiano Wagner Moura no papel de um oficial do Bope, o longa se transformou em fenômeno cinematográfico inédito no país antes de ser exibido em uma única sala de projeção. Do taxista ao nerd que baixa arquivos de vídeo no computador, o filme de ação que não tem medo de mostrar como funciona a polícia, o Estado e a própria sociedade brasileira virou obrigação desde que a primeira cópia escapou no fim de junho de forma misteriosa.
Bem, o mistério acaba hoje. E eu ainda nem sabia disso.
Nem José Padilha. O diretor nos recebe no meio do caos dos últimos dias de finalização da cópia derradeira de Tropa de Elite, a famosa versão diferente da vendida nas ruas. Em três dias, o cineasta, que ganhou reconhecimento internacional por Ônibus 174, embarca para Los Angeles para terminar a remixagem e bater o martelo em relação ao corte final. O escritório está apinhado de secretárias e assessores correndo feito ratos de feira. O próprio celular de Padilha não pára quieto. Entramos no seu pequeno escritório e um papo em inglês já está a pleno vapor. Tentamos não ouvir os segredos, mas impossível deixar de notar as palavras "Academy Awards" na conversa. O diálogo finalmente termina. O celular vibra novamente. Desta vez, algum jornalista precisa de uma declaração do diretor sobre as investigações da cópia pirata. "Acabei de recusar uma matéria para o Jornal da Globo", explica ao interlocutor. "Me perdoe, mas não quero fazer propaganda de cópia pirata, porque meu filme ainda não está disponível de verdade e a investigação não acabou."
O diretor carioca não deixa de ter razão. Desde que correu a notícia de que Tropa de Elite estava sendo vendido nos camelôs do Rio de Janeiro, Padilha fez questão de avisar de não se tratar do corte real e que iria investigar até o fim quem havia vazado a cópia. Colunistas fluminenses o acusaram de ter passado o DVD para o mercado negro como uma espécie de jogada de marketing. A polícia, que geralmente faz vista grossa a esse tipo de comércio, começou a fechar banquinhas e apreender centenas de unidades de "genéricos", inclusive com o nome mudado - as imagens de capa traziam policiais, a imagem do Cristo Redentor e cartuchos de bala sob o título Bope - Tropa de Elite. De repente, o longa nacional virou um fenômeno (40 mil downloads por dia). "É uma loucura", exclama a atriz global Fernanda Machado, dona do papel da menininha abastada que trabalha na ONG de uma favela. "Toda a equipe técnica da Globo já viu o filme. Meu apelido entre eles agora é caveira."
Apesar dessa "divulgação em massa", ninguém envolvido diretamente com o longa está saindo no lucro. "Mesmo que o filme seja um enorme sucesso nos cinemas", divaga Padilha. "Nunca saberemos se teria um público maior. Não quero avaliar minha obra a partir de uma cópia não-finalizada que vazou antes. Pirataria é crime e deve ser tratada assim. Vamos descobrir quem foi. Pode acreditar." Bem, mesmo se não quisesse acreditar, seria difícil continuar cético quando Rodrigo Pimentel, ex-soldado do Bope e co-roteirista de Tropa de Elite, entra eufórico pelo escritório. "Pegamos todos eles!", diz com o telefone ainda nas mãos. "Como assim?", responde um Padilha incrédulo. "Pegamos todos eles, porra. Não foi apenas um cara, foram três. Uma quadrilha." Olhei para os cantos das paredes procurando câmeras de uma pegadinha, mas o cenário estava se formando de verdade. A polícia civil carioca acabara de informar que um dos suspeitos de fazer a cópia confessou que ele e seus colegas da empresa de legendagem Drei Marc tinham sido responsáveis pela escapada. Pior: o delator teria dito que Alexandre Mofatti, um ator do longa, estava com uma das cópias originais. "Quem é Alexandre Mofatti?!", grita Padilha, exigindo uma ficha completa do acusado. "Porra, espero que pelo menos seja alguém que faça um PM tradicional", brinca.
O desejo, infelizmente, não se concretiza. Mofatti faz o capitão Carvalho, um dos cabeças do Batalhão de Operações Especiais, grupo tido como incorruptível e extremamente violento, que é liderado por Wagner Moura na pele do capitão Nascimento, prestes a ter um filho e pressionado para encontrar um substituto para largar o batalhão. O anúncio da descoberta dos culpados não facilita para o celular de José Padilha. "Bem, pelo menos isso joga por terra a babaquice da teoria de que tudo isso era jogada de marketing", comemora o cineasta, já conversando com jornalistas, delegados e representantes do governador do Rio, Sérgio Cabral. "Marketing é um caralho!"
ÉPICO POLICIAL
José Padilha não pode reclamar de todas essas confusões. Quando estava fazendo Ônibus 174, documentário sobre o seqüestro que terminou com as mortes de uma refém e do bandido depois de uma ação desastrosa da polícia, o diretor começou a ouvir depoimentos de oficiais sobre a situação da PM no Rio e já tinha sido declarado persona non grata pela Secretaria de Segurança Pública do então governador Anthony Garotinho. "Muitos tinham medo de falar, mas, por trás das câmeras tive uma noção de como o sistema funcionava e como poderia levar isso ao limite em outro filme", recorda Padilha, que escreveu um roteiro inicial de 187 páginas com Rodrigo Pimentel, um dos autores do livro Elite da Tropa - que, tirando algumas situações, não tem nada a ver com o longa. "O texto contava toda a história do Bope, desde o começo." Com o script nas mãos, o diretor conseguiu financiamento da Weistein Company, novo estúdio dos fundadores da Miramax, de 3 milhões de reais - 10 milhões foi o orçamento total. Parte da grana foi para enxugar o épico policial ao contratar o roteirista de Cidade de Deus, Bráulio Mantovani. "O filme era narrado por duas pessoas, tinha personagens demais", conta Pimentel, nos acompanhando em almoço rápido numa loja de conveniência a poucos metros da produtora.
O calhamaço do primeiro tratamento também serviu para convencer Wagner Moura a assumir o papel de protagonista e narrador do filme. "Era um roteiraço", empolga-se o astro de Paraíso Tropical. "O único cara que precisava estar no filme com certeza era o Wagner. Ele é conhecido por ser bom ator e bom ator faz qualquer papel." Mesmo assim, a missão não foi fácil. Moura teve de servir de referência para os outros membros do elenco, menos conhecidos e dentro da filosofia de "improvisação" que marcaria as filmagens. "Eu falava como seria a cena, mas a marcação era mais livre para obter realismo e um estilo documental", revela Padilha. Além disso, os atores também precisaram passar por dois meses de ensaios e pelo próprio treinamento cruel do Bope. "O pau cantou", confirma o cineasta. "Mas agora os atores podem invadir uma favela. Viraram uma máquina mortífera." "Eles diziam que estávamos mais preparados que a PM convencional", recorda Moura. "Mas isso é porque os soldados do Bope têm um amor tão grande que trabalhavam muito para não sair nada errado."
Alguns atores desistiram no meio do caminho, outros reclamaram dos métodos ultra-realistas, mas não há com negar que Tropa de Elite seja talvez a ficção mais realista do cinema desde Vôo United 83, de Paul Greengrass. "Tinha de ser tapa na cara e comida no chão", conta Caio Junqueira, o Neto, novato na PM corrupta que, ao lado do amigo Matias (André Ramiro), tem um forte senso de ética e só o realiza ao enfrentar o treinamento do Bope. "Os atores criticam porque não entendem que esse método era necessário para conseguirmos o resultado documental." Mesmo assim, os próprios envolvidos não escapavam incólumes. "Fica algo dentro de você, é inevitável", confessa Wagner Moura.
A situação não melhorou quando, em pleno set no morro Chapéu Mangueira, um lote de armas cinematográficas foi roubado e funcionários desertaram com medo. "Foi uma filmagem estranha", admite Padilha. "As armas foram roubadas, a polícia parou as filmagens para entrar na favela e tive uma dificuldade imensa para conseguir autorização para filmar." O diretor não acredita que o Bope, receoso de como seria retratado na obra, tenha feito isso como forma de aviso - o que seria irônico, já que, apesar de mostrado como um grupo de repressão extrema, o Bope é o mais próximo do que podemos chamar de heróis em Tropa de Elite. "O resultado de um filme passa pela percepção do público", acredita o cineasta. "Para a população que viu a cópia pirata, Tropa de Elite é uma espécie de vingança." "Tenho visto muita gente falando que o Bope é o herói do filme e fico estarrecido com isso", fala Moura.
A revolta popular em forma de longa não é difícil de entender. Tropa de Elite é o verdadeiro movimento "Cansei". Na pele de Nascimento, não há como deixar de enxergar o exagero do sentimento de desamparo que habita cada setor da sociedade honesta e a coragem do roteiro em não perdoar nenhum setor dela. Até os principais atingidos pela produção reconhecem que alguma coisa precisa ser feita. "Já vi capitão importante da PM ligando para o Pimentel e dizendo: 'Achei o filme do caralho, mas vou ter de dizer que é uma merda'", conta Padilha. "Já fui abordado por policiais e virei ídolo. São tão despreparados que não entendem", afirma Junqueira, logo sendo rebatido por André Ramiro: "Não sei se é questão de entender. O policial corrupto não tem a menor vergonha em ser corrupto".
Ao fazer essa diferença entre o batalhão patético da PM carioca, no qual cabo Tião cuida de uma oficina em frangalhos, e o outro cabo precisa "rir para fazer rir" ao pedir suas primeiras férias em quatro anos, Tropa de Elite toma duas atitudes inéditas no cinema nacional. A primeira é escancarar o estado calamitoso de uma instituição esquecida. "O Estado abandonou a polícia", ressalta Pimentel. "A polícia não é um detalhe. Espero que seja o primeiro de muitos filmes sobre ela", clama Padilha. O segundo ineditismo é conseguir realizar uma obra na qual o policial é o herói da trama. "Os filmes no Brasil sempre mostram o ponto de vista do marginal. É Pixote, Zé Pequeno, Sandro Nascimento. Não havia nada com a visão do policial. Queria mostrar que era possível falar sobre violência urbana de uma nova maneira", diz o cineasta. "O que me tocou no longa foi o fato de ser sobre dois jovens querendo entrar para a polícia para fazer algo de bom", explica Fernanda Machado. "O bandido sempre é a estrela da história. Agora, não é mais assim", concorda Junqueira.
Boa parte dos méritos, no entanto, está nas melhores cenas de ação já coreografadas no cinema brasileiro. "Há um tabu que brasileiro não sabe fazer cena de ação", crê José Padilha. "E esse tabu está certo." Para se livrar disso, o carioca perguntou aos soldados do Bope qual o melhor filme sobre combate urbano. A maioria apontou Falcão Negro em Perigo, de Ridley Scott. Padilha enviou o roteiro para Phil Nielson, coordenador de dublês do blockbuster. Ele topou reduzir o salário por causa do script e da vontade de conhecer o Brasil. "Phil ficou impressionado porque estávamos arrebentando sem as mesmas condições que teria nos Estados Unidos", recorda o diretor. "Os americanos ficaram chocados com nossos métodos. Eram muito crus", rebate Wagner Moura. Nielson ajudou até a metade das filmagens. Quando Neto invade a favela e deflagra uma guerra entre policiais e traficantes, Padilha ainda teve o auxílio nos seis dias de batalha. O mesmo não acontece na caçada final ao traficante Baiano (Fábio Lago). "Já tinha aprendido tudo. É tudo questão de tecnologia e timing", explica.
A mesma frase pode ser aplicada para o lançamento de Tropa de Elite nos cinemas. Apesar de as alterações não serem drásticas (tem uma cena a mais com Caio Junqueira, mudanças no off de Wagner Moura e a ausência das chamadas de capítulos), o longa precisa confirmar sua condição verdadeira de hit e não apenas um produto de consumo underground. "Nem posso andar na comunidade. Todo mundo quer tirar uma foto", diverte-se o novato André Ramiro, que saiu da bilheteria de um cinema para ganhar um dos papéis principais no longa do ano. "Se vier prêmio, ótimo. Pensou como ia ser triste se ninguém assistisse a esse filme?", questiona Fernanda. Enquanto os festivais e o Oscar não chegam, aproveito os últimos minutos no Rio de Janeiro para me despedir de todo o elenco e do diretor reunidos na pracinha. Já no táxi rumo ao aeroporto, o rádio noticia mais um tiroteio no Morro Pavãozinho. Um soldado do Bope ficou ferido. Dois traficantes foram mortos. A realidade, infelizmente, anda de mãos dadas com a ficção.



Tropa de Elite



Ótimo que todo mundo a esta altura do campeonato já tenha visto Tropa de Elite (2007). Questões de pirataria à parte, fica mais fácil resenhar e discutir o filme quando o leitor já sabe do que estamos falando. E não há meios de ciscar em torno do trabalho do diretor José Padilha - Tropa de Elite chama todo espectador a formar uma opinião.
Antes de mais nada, porque o filme não se apresenta a nós na forma de entretenimento escapista. A narração em off de Wagner Moura desde o primeiro minuto passa a certeza de que aquela história que será contada não foi necessariamente construída para a imersão na ficção, mas para ilustrar uma realidade. Realidade essa que é mais próxima ou mais distante de nós, dependendo de quem assiste, mas ainda assim uma realidade inegável.
O fato de Padilha ter despontado como documentarista em Ônibus 174 pesa. A levada de Tropa de Elite tem o didatismo dos filmes que não deixam lacunas. É ação atrás de ação, exposição atrás de exposição, pontuadas pelo discurso de Nascimento, o capitão interpretado por Moura em tom professoral. Discurso e filme se confundem, ambos dirigem-se ao espectador numa via de mão única.
A favor da narração em off, vale dizer que ela não se limita a verbalizar a cena que se mostra. Nascimento é mais um comentarista da ação: o filme abre com uma desastrosa entrada da Polícia Militar no Morro da Babilônia, invasão essa que desencadeia troca de tiros com o tráfico e que força o BOPE a intervir. Wagner Moura sequer mostrou o rosto no filme ainda, mas já sabemos bem o que ele pensa da situação - "se é pra fazer direito, deixe o BOPE fazer sozinho".
Nascimento prega a filosofia dominante dentro do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar, divisão independente da PM: o Rio de Janeiro está em guerra, e nas guerras não se fazem prisioneiros. O livro em que o filme se baseia, Elite da Tropa, de André Batista, Rodrigo Pimentel e Luís Eduardo Soares, mescla experiências de um oficial do BOPE, Pimentel, com análises da situação do narcotráfico no Rio. Enquanto ponto de vista do Batalhão, portanto, Tropa de Elite não deixa (e nem deixaria) de disseminar a visão de mundo dos oficiais que compõem a guarda.
Como fazer, então, com que o espectador "humanista" compre o discurso de Nascimento? O diretor e o roteirista Bráulio Mantovani sacam uma inteligentíssima manobra não-linear. Como o tiroteio abre o filme, logo supõe-se que encerrará também, como bom clímax e bom flashback. Acontece que o caso da Babilônia se resolve no meio do filme. A partir da metade, como se Tropa de Elite começasse de novo, acompanhamos como outros dois PMs, Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro), centrais na subtrama da Babilônia, entrarão para o BOPE.
Não há como rejeitar a filosofia de Nascimento, particularmente pela ótica de Neto e Matias, porque José Padilha institui entre os três protagonistas uma relação de gratidão. Neto e Matias meteram-se numa enrascada na Babilônia e Nascimento subiu para salvá-los. Imaginou-se (pelo menos eu imaginei) que o tiroteio no baile funk concluiria o filme, mas no fundo o caso da Babilônia é só o estopim.
Melhor dizendo, é o pretexto.
A lógica é absolutamente genial em seu maquiavelismo: quando Nascimento, personificando o Batalhão, estende a mão a Neto e Matias, firma-se ali um compromisso. Os dois PMs idealistas, que passaram o primeiro terço do filme camelando em meio a papeladas e viaturas encalhadas, tornam-se os Faustos (particularmente o racional Matias) do poderoso Mefistófeles que é Nascimento. Não tem nem o que discutir: em oposição à paralisia purgatorial da PM, a disciplina do BOPE é um quente espetáculo dos infernos.
Se alguém acha (e certamente há muitos) que partir para o tudo-ou-nada é legítimo na situação do Rio hoje, Tropa de Elite ratifica esse pensamento com uma estrutura dramática sem furos e altamente persuasiva. Agora, reconhecer o brilhantismo de Padilha como narrador não é a mesma coisa que concordar com seu discurso. Tropa de Elite é uma peça de convencimento das mais eficientes, por vezes sofisticada, mas não deixa de ser moralmente condenável. Não há guerra que justifique o atropelo da lei. Tortura e execução nunca serão justificáveis.
Uma cena em particular, já no fim do filme, é bastante emblemática: depois que os oficiais ameaçam violentar o garoto com o cabo da vassoura, ele confessa onde está encondido o traficante. A câmera deixa a laje, onde estava na altura dos atores em plano aberto, e faz um movimento em direção ao sol para fechar o plano.
Mirar o céu não é só um raccord (ligação que dá fluidez entre o fim de um plano e o início do próximo) genérico. A contra-luz cega a lente com uma brancura que, metaforicamente, "limpa" o abuso a que acabamos de assistir. O sol simbólico pode ser uma esperança, pode ser o aval divino à tortura, pode ser lido de maneiras diversas - inequívocos são os meios cinematográficos que o diretor Padilha usa para legitimar os fins bárbaros da tropa.
fonte: Omelete

O Caçador de Pipas


Era inevitável que fosse acontecer. Mais cedo ou mais tarde, O Caçador de Pipas seria adaptado para o cinema. E o escolhido certamente teria todos os recursos à disposição. Foi o que aconteceu. Marc Forster (Mais Estranho Que a Ficção), opção óbvia pelo retrospecto de sua carreira, não teve restrições para realizar o seu trabalho. E isso está muito claro nas escolhas que fez e no que se produziu na tela grande a partir delas.
Alguns exemplos. Ele cogitou filmar em Cabul, mas desistiu por conta do clima de instabilidade. Não abriu mão, no entanto, de escolher no Afeganistão os meninos que fariam Amir e Hassan quando jovens. Muito da força do filme vem da química e da espontaneidade de Zekeria Ebrahimi (Amir) e Ahmad Khan Mahmoodzada (Hassan). Este último, especialmente, parece destinado à carreira de ator.
Mais ainda. Forster rejeitou a idéia de um longa todo falado em inglês, mesmo sabendo que o público americano não gosta de legendas. Escolheu atores de origem árabe, o escocês de ascendência egípcia Khalid Abdalla (Amir adulto) e o iraniano Homayoun Ershadi (Baba), que teriam facilidade de aprender o dari (variação do persa falado no Afeganistão).
Com tudo isso, Forster conseguiu realizar uma adaptação digna e até certo ponto ousada, com elementos fortes que podem vir a criar polêmicas, mas com uma história humana fundada no amor entre pai e filho e entre amigos. O roteirista David Benioff (A Última Hora) teve participação fundamental nisso e parte do crédito com certeza deve lhe ser endereçada.

fonte: Revista SET

King Kong


Carl Denham (Jack Black melhor do que nunca) é um produtor/ diretor de cinema que arrisca tudo o que tem em uma aventura na busca da locação perfeita: a misteriosa Ilha da Caveira. Com seu assistente (Colin Hanks) de um lado e seu renomado roteirista teatral (Adrien Brody), mesmo que contra sua vontade, de outro, tudo que lhe falta é uma atriz para o papel principal de seu filme. Ann Darrow (Naomi Watts) é a bela por quem o gorila gigante enfrentará o mundo. Depois do sucesso de publico e crítica de O Senhor dos Anéis, Peter Jackson poderia até realizar uma refilmagem tosca de King Kong que ninguém reclamaria muito. Ok, talvez o estúdio não fique muito contente se o longa não render alguns trocados nas bilheterias. Mas este não é o caso. Com mais de três horas de duração (normal para o cineasta) e muitos efeitos especiais (dizem que mais 80% é computação gráfica) esta reinvenção do clássico de 1933 - não confundir com a outra versão de 1976 - tem tudo para arrecadar algumas boas centenas de milhões de dólares mundo afora. Cenas de ação tensas e aflitivas prometem garantir a longevidade da obra e ainda render algumas estatuetas em março do ano que vem. Com um elenco deste porte atuando em sintonia com as intenções do cineasta fica mais fácil convencer o espectador de que ainda existe magia ao preço de um ingresso de cinema.

Sobre Meninos e Lobos


Um filme não precisa ser inovador ou mostrar cenas de sexo, violência ou algo do gênero para surpreender o público. Muitas vezes basta um bom roteiro, um elenco bem escolhido e uma direção segura para criar uma pequena obra-prima. Em seu vigésimo-quarto longa como diretor, o veterano Clint Eastwood conseguiu este feito. Baseado no best-seller escrito por Dennis Lehane, Sobre Meninos e Lobos é sem dúvida seu melhor trabalho desde Os Imperdoáveis e deve ter feito até seu mais fervoroso crítico torcer o nariz. Você pode até dizer que a trama parece tirada de alguma série de TV policial como Lei e Ordem, mas é impossível não se envolver com a história.Depois do fraco Dívida de Sangue – trabalho anterior onde ele interpreta um veterano policial que ganha um coração novo – Eastwood precisava mostrar que mesmo aos 73 anos ainda continua o mesmo sujeito durão que personificou nas telas. Para isso, pegou a história de Jimmy Markum, Dave Boyle e Sean Devine – interpretados respectivamente por Sean Penn, Tim Robbins e Kevin Bacon –, três amigos de infância que voltam a se reunir depois que um deles vive uma tragédia familiar. Tudo começa em um flashback mostrando o trio na adolescência, brincando na rua e escrevendo seus nomes em uma calçada de cimento fresco. Dois homens que se identificam como policiais surpreendem os garotos, repreendem o ato e levam o mais ingênuo do grupo, Boyle. O problema é que ele na verdade é seqüestrado e abusado sexualmente pelos farsantes. Um fato que marcará profundamente não só sua vida, mas de todos os três. Trinta anos depois, cada um deles seguiu seu caminho. Boyle agora é um homem casado, mas que não esconde a imagem de um sujeito atormentado pelo passado. Jimmy Markum é um comerciante que tem um histórico criminoso e que tenta levar a vida com a esposa e três filhas. Os dois continuam próximos, ao contrário de Sean Devine, que se afastou e virou policial do departamento de homicídios. O trágico assassinato da filha adolescente de Markum reúne os três novamente. Devine e seu parceiro Whitey Powers (Laurence Fishburne) são os responsáveis pela investigação, mas Markum decide usar seus próprios meios para encontrar o culpado e se vingar. Para complicar, um dos suspeitos acaba sendo o próprio Boyle – que no dia do crime chega a casa com as mãos cobertas de sangue, dizendo que teve uma briga com um assaltante – e desperta a desconfiança da esposa Celeste (Marcia Gay Harden). Penn e Robbins se mostram no auge de seu talento com interpretações dignas de uma indicação para o Oscar. Mas é o roteirista Brian Helgeland (de Los Angeles – Cidade Proibida que também dirige filmes, como o recente Devorador de Pecados) que faz bonito ao conduzir a história de maneira que não deixa o espectador desgrudar da tela durante os longos 137 minutos de exibição. Enfim, Eastwood mostra como realizar um filme surpreendente sem enfeitar muito. E isso pode ser considerado sua maior virtude.

Eu, Robô


Os primeiros minutos de Eu, Robô não são animadores: Will Smith só de cuecas faz suas tarefas matinais até surgir um close gigantesco nos tênis comprados pelo detetive Del Spooner - que ainda é abordado por um robô-carteiro da Fedex. Começar um filme de verão com músculos e uma inundação de merchandising nunca é um bom sinal. Mas a confiança do diretor Alex Proyas (O Corvo) no material é tão grande que ele se deu ao luxo de mostrar que estamos diante de um longa que renderá goles estúpidos de refrigerantes e punhados e mais punhados de pipoca nas próximas duas horas. O melhor de tudo é que Eu, Robô ainda encontra espaço para misturar ação desenfreada com pitadas de inteligência. É um filme descerebrado com cérebro.Apesar de se apropriar do nome da obra de Isaac Asimov, a produção pouco tem em comum com o texto original. O roteiro de Jeff Vintar e Akiva Goldsman se utiliza das leis da robótica e de outros detalhes para contar uma empolgante trama policial que envolve a morte de um cientista, um detetive que odeia tecnologia e um robô capaz de decidir seu destino. O cenário é a Terra de 2035, claramente emprestada de Minority Report, na qual ajudantes robóticos são tão comuns quanto os celulares de hoje. Uma mega- corporação cuida de manter esses escravos de ferro em constante evolução, mas até que ponto as máquinas mais recentes podem reagir às ordens humanas? Será que elas são capazes de ter sentimentos e sonhar? Essa faísca de filosofia (ecos de A.I.?) ganha o tom necessário entre efeitos especiais realistas, seqüências de deixar a adrenalina fervendo e a atitude do durão, porém brincalhão (ecos de Duro de Matar?) Spooner - só anulada pelo robô Sonny, a melhor coisa do longa. Saber onde dosar e como dosar é o maior trunfo de Eu, Robô, o futuro dos filme de ação. Literalmente.

O Código Da Vinci

Derivada de um livro moldado para ser um filme hollywoodiano dos bons, a adaptação de O Código Da Vinci consegue ser tudo que o livro não é: tedioso, confuso e inverossímil. O primeiro grande erro de Ron Howard é respeitar demais uma obra que não merece tanto respeito - se até William Shakespeare já recebeu versões ousadas, por que Dan Brown iria ficar com raiva se mexessem em seu "livro fast food"? Neste passo, a primeira meia hora do longa é tão rápida e informativa que não há espaço algum para conhecermos Robert Langdon (Tom Hanks, que leva o papel sem problemas, mas perdido pela própria inércia do personagem) ou sentir alguma emoção pelos assassinatos, coordenados com uma frieza assustadora para um cineasta conhecido por ser meloso demais. O que A Luta Pela Esperança tinha de coração, O Código Da Vinci tem de indiferença.
Após os minutos de confusão, o filme começa a encontrar seu eixo com o apropriado uso de efeitos especiais nos flashback históricos e a fuga de Langdon pelas ruas de Paris. Mas a produção nunca engata a terceira marcha, primeiramente por causa da interpretação robótica de Audrey Tautou, que irrita no papel do espectador médio, fazendo perguntas idiotas o tempo inteiro e recebendo explicações que deixam o longa com aspecto de Cinecurso 2o Grau. Essa impressão só muda quando surge Sir Ian McKellen. Seu Leigh Teabing sarcástico e carismático é a melhor coisa de O Código Da Vinci. McKellen poderia dizer que o mundo é quadrado e ainda assim alguém acreditaria. Não por acaso, ele versa sobre a descendência de Jesus e a divindade de Maria Madalena, garantindo a credibilidade do assunto. Por outro lado, o roteiro usa Langdon como ponto de contestação, explicando que são apenas teorias e mostrando a covardia de Hollywood em assumir a parcialidade adotada por Brown nos seus livros. Será que os milhões de dólares nas bilheterias valem a criação de um trabalho sem personalidade e óbvio?

fonte: Revista SET


Guerra dos Mundos


O mundo vai acabar!!! Um dos cineastas mais criativos das últimas décadas se rendeu à febre das refilmagens. Steven Spielberg se uniu novamente a Tom Cruise (a dupla trabalhou junto em Minority Report), e reformulou o clássico da ficção científica de autoria de H.G. Wells (o mesmo de A Máquina do Tempo) que mostra a raça humana frente a frente e a uma invasão marciana. A história foi parar no rádio (na famosa transmissão que Orson Welles fez na década de 30), virou longa-metragem nos anos 50 e até série de televisão. Este Guerra dos Mundos é divertido, tem bom ritmo, sustos e, apesar de alguns escorregões feios no roteiro, é um filme-catástrofe legal.
A principal virtude de Guerra dos Mundos está na narrativa. Tal narrativa que, ao mesmo tempo, se torna o seu maior defeito. Explico: apesar das aparentes comparações com Independence Day, a real pedra no sapato de Spielberg chama-se Sinais, o longa dirigido por M. Night Shyamalan - justamente um de seus fãs mais notáveis. A idéia é a mesma: mostrar uma invasão alienígena pelos olhos de uma família - aqui no caso o relapso pai Ray Ferrier (Cruise) e seus dois filhos (interpretados pela garota prodígio Dakota Fanning e o desconhecido Justin Chatwin). Com premissa semelhante, Shyamalan realizou uma caprichada mistura das referências (inclusive Guerra dos Mundos), dispensou efeitos especiais grandiosos e criou uma experiência claustrofóbica que, se não chegava a ser aterrorizante, era bastante perturbadora. Spielberg fez igual, só que acrescentou cenas de ação de arrancar gritos do público. O resultado enche os olhos, mas perde parte de seu impacto pelas semelhanças com o trabalho do indiano.
Separado da mulher Mary Ann (Miranda Otto, da saga O Senhor dos Anéis), Cruise interpreta um sujeito longe de ser um modelo heróico. Pelo contrário, quando ele percebe as intenções dos alienígenas, é o primeiro a dar no pé junto com os filhos. O filme acompanha essa fuga, na qual o personagem cruza com pessoas desesperadas e incomuns (como Tim Robbins, que aparece só na segunda metade do longa). Pena que Spielberg ainda apele para certas pieguices em horas marcantes. Repare na curiosa referência que o diretor rende justamente a Shyamalan. Em uma das cenas, Cruise caminha são e salvo por entre destroços de um avião que acabou de cair. Uma repórter o vê e pergunta: "Você estava no avião?". Ouvindo a resposta negativa, ela completa: "Se estivesse, isso renderia uma boa história". Alguém disse Corpo Fechado? Parece até uma homenagem do mestre ao aluno.

fonte: www.setonline.com.br

Ratatouille


Com os filmes de Brad Bird todo mundo pode tudo. As crianças se divertem. Os adultos se emocionam. E todo mundo ri e chora, dependendo do que pede a ocasião. Foi assim com o subestimado O Gigante de Ferro, animação convencional de Bird inexplicavelmente lançado no Brasil apenas em DVD. E com o irregular Os Incríveis, animação digital que teve uma recepção dividida tanto de críticos quanto de público. Ratatouille, também totalmente feito por computador, segue pelo mesmo caminho, no sentido de que tem várias camadas de leitura e certamente atingirá os corações e mentes de pais e filhos com a história da amizade entre um jovem inseguro (Linguini, voz de Lou Romano na versão original) e um ratinho determinado (Remy, voz de Patton Oswald).
Bird é um caso raro de animador que fez a transição entre o convencional e o digital sem perder a ternura. Ratatouille tem essa característica em comum com os outros filmes do diretor, uma espécie de olhar terno, carinhoso e galhofeiro para tudo o que faz parte do mundo em que vivemos - seja um herói, seja um vilão. Neste caso, os antagonistas da dupla formada por Linguini e Remy são o chef Skinner (voz de Ian Holm) e o crítico gastronômico Anton Gusteau (Peter O'Toole). Eles tentarão impedir os amigos de realizarem o sonho de montar um grande bistrô gastronômico na capital francesa. E só não conseguem por causa da determinação, do engenho e da arte produzida pelos dois companheiros - combinação que se justifica plenamente na lógica do filme.

fonte: www.setonline.com.br

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei

Quando as quase três horas e meia de O Retorno do Rei chegaram ao fim, também terminou a maior trilogia da história do cinema. Maior e melhor. A culpa é de Peter Jackson. Ao contrário de outras séries cinematográficas que foram sendo esvaziadas a cada novo episódio, o diretor kiwi manteve uma consistência assombrosa, equilibrando com talento e vigor sem igual todos os aspectos da trilogia – do tremendo e surpreendente trabalho técnico ao apuro narrativo, passando por uma direção de atores impecável e uma capacidade sem igual em criar seqüências que não raro terminavam em urros e aplausos em salas do mundo inteiro. Por isso mesmo, maldito seja Peter Jackson por nos dar um vislumbre do que é o bom cinema, aumentar quaisquer expectativas e fazer do resto dos filmes em cartaz, guardadas as devidas proporções, filmes tão menores.
Mesmo com proporções tão gigantescas, O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei triunfa por ser, acima de tudo, um filme sobre seus personagens. Sean Astin é quem realmente se destaca como Samwise Gamgee, companheiro de Frodo e sua única ligação com o mundo longe das trevas envenenadas pelo Anel. Seu desespero ante as maquinações de Gollum e as decisões deturpadas de Frodo são de partir o coração – assim como a coragem do pequeno hobbit perante desafios maiores que a vida. E, apesar de parecer repetição, Andy Serkis faz um trabalho estupendo como Gollum. Se em As Duas Torres a criatura via sua mente lentamente se espatifar em duas, aqui é claro que a personalidade viciada no Um Anel controla os ecos de Sméagol como a uma marionete – não existe mais um ser digital, mas de carne e osso, com uma humanidade insuspeita.
O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei foi uma despedida ao mesmo tempo alegre e melancólica, que encerra a jornada de seus personagens com brilho, porém sem nunca escorregar para o pieguismo fácil. Quando as lágrimas da platéia brotam – e, acredite, elas não serão poucas –, o motivo não é só o que acontece na tela, mas também a certeza de que a saga de Frodo, Sam, Aragorn, Gandalf, Legolas e tantos outros que aprendemos a respeitar nos úl-timos anos, chegou ao fim.
Sinopse: O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei foi o mais assustador da trilogia, com cenas de gelar o sangue e demonstrações tão explícitas de crueldade e insanidade que farão você se contorcer. A primeira cena já nos dá idéia do que esperar. Em flashback, somos levados a uma tarde bucólica no Condado, quando dois hobbits, os primos Déagol e Sméagol estão pescando na tranqüilidade de um rio. O primeiro cai na água e emerge com um achado – um anel dourado, aparentemente simples. Sméagol coloca os olhos na peça e se mostra capaz de tudo para possuí-la, inclusive matar o primo. Expulso de sua aldeia, ele se refugia nas cavernas, e com os anos também se despede de sua humanidade. Ele torna-se Gollum.
Logo em seguida voltamos ao ponto em que terminou As Duas Torres, com Gollum conduzindo Frodo e Sam para a Montanha da Perdição – ou, como a criatura definiu com um sorriso e uma observação, para a morte certa. Paralelamente, Aragorn, Gandalf e seus aliados partem para a cidade de Minas Tirith, capital do reino de Gondor, para a última batalha contra os exércitos de Sauron – que vai definir o destino dos homens e o futuro da Terra-Média. A escala de O Retorno do Rei é inimaginável, e seria muito fácil para Peter Jackson se perder ante tantas linhas narrativas. Mas ele mostra total domínio de seu ofício, equilibrando todos os pontos do roteiro enxuto, que inclui um exército de mortos; a batalha de Sam com a aranha gigante Laracna, de longe a cena mais tensa e assustadora da trilogia; o último foco de resistência do exército de Gondor às portas de Mordor; e o clímax que revela o destino do Um Anel no limiar das chamas que o forjaram.

fonte: www.setonline.com.br
abcs